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Espelhei-me no conto “O espelho”, de Machado de Assis.
Onde a personagem principal, Jacobina, convivia com o medo de olhar-se no espelho. Confessava “um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois”.
Em um dos trechos do livro ele desenrola um relato à 4 cavalheiros:
“-Mas, se querem ouvir-me calado, posso contar-lhes um caso de minha vida em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há só uma alma, há duas...
-DUAS?
-Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora pra dentro.
O oficio da segunda alma é transmitir a vida, como a primeira, as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.”
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Nessa busca do que se é me encontrei num labirinto, labirinto esse feito de espelhos. Vi tantos rostos multifacetados que me desencontrei nesse encontro.
A verdade é que não se é o que se parece ser. E o que se é? Seria essa imagem opaca refletida no espelho? Ou seria um pouco dos fragmentos dilacerado no âmago do peito? Seria os dois alinhavados num mesmo tecido e pronto. Mas como tecer uma peça só com linhas tão diferentes?
Para mim a busca do ser é um desvelar no desvelo, delimitar as fronteiras do que se é e do que se parece ser é como procurar agulha no palheiro. Já que não se pode andar de mãos dadas com as duas almas da existência,o ser se faz por aquilo que lhe vem do outro, e nunca sozinho.
Sou um caleidoscópio de imagens, sou um pouco de cada experiência tênue que a vida fez de mim, sou um pouco de cada mergulho que dei no espelho.
Agora cada um tem em mãos um espelho, cada um tem de mim uma face de espelho, cada um vê em mim o reflexo tenso, denso e breve refletido pelo encontro de nossas almas, porém cada um tem de mim apenas um desses reflexo, e eu tenho todos, que por hora juntos tenho uma junção de fragmentos, tenho um espelho quebrado, sou um espelho quebrado.
terça-feira, 16 de julho de 2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
60 Segundos

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1,2, o pai desliga o despertador; 3,4, o menino se volve na cama; 5,6, o pai acerta a barba; 7,8, o menino percebe o barulho no banheiro; 9,10, o pai arruma a gravata; 11,12, o menino suplica atenção; 13,14, o pai engole o café queimando o trato digestório; 15,16, o menino grita com amor; 17,18, o pai procura o jornal; 19,20, o menino aclama “papai”; 21,22, o pai lê as manchetes mastigando um pedaço de pão; 23,24, o menino corre pelos corredores; 25,26, o pai acende um cigarro; 27,28, o menino chega até a cozinha; 29,30, o pai sai pela porta da sala; 31,32, o menino abaixa a cabeça; 33,34, o pai fecha a porta do carro; 35,36, o menino ouve o barulho do motor; 37,38, o pai esquece-se de ajeitar o retrovisor; 39,40, o menino debruça na janela; 41,42, o pai se esconde nos óculos escuros; 43,44, o menino chora; 45,46, o pai liga o som do carro; 47,48, o menino exclama “bom dia” com o pouco de fôlego que o resta; 49,50, o pai não enxerga suas lagrimas; 51,52, o menino fecha a janela; 53,54, o pai não recebeu o seu “bom dia”; 55,56, o menino volta para a cama; 57,58, um caminhão virando a esquina; 59,60, um menino órfão...
Até quando vamos continuar nos programando para viver em 60 segundos?
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Verbos complexos
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Sou do tipo que prefere a palavra escrita à palavra falada. Talvez por ser banhada por uma espécie de timidez, ou devido à tamanha insegurança que mal pode ater-se a alma. Acontece que tenho uma certa intimidade com o papel, liberdade essa que me faz poder ser o que eu quiser e bem entender, aliás, apenas “quiser”, já que entender é um verbo que não costumo proferir sem o não na frente.
Reconheço meu péssimo habito de habituar-me ao não entendimento. Quanto ao outro verbo “querer”- esse sim eu domino todos os tempos verbais. Eu poderia escrever um livro apenas com as conjugações desses verbos elucidando todas as experiências que queria ou não entendo. Esse livro teria mais de 1000 páginas e seria mais complexo que o mais complexo livro. Qual é o mais complexo livro? Boa pergunta. Não sou do tipo que lê muito. Deveria ler mais, mas confesso que a complexidade às vezes me enjoa.
Eu nunca escreveria um livro de 1000 páginas sobre verbos tão complexos, pois eu iria enjoar de mim mesma. Prefiro querer e não entender em silêncio. E se eu disser que quero me entender, você entenderia?
Por mera coincidência, acabei de ouvir no radio que para entender as coisas é preciso experimentá-las. Será que uma vida inteira de experimentos basta para tantas coisas que quero e não entendo? Se em média uma pessoa vive 70 anos, equivalente a 25.550 dias ou 614.000 horas, seria esse tempo o suficiente para tão complexo cronograma? Já perdi uma hora escrevendo, devo subtrair uma experiência? Seria menos um entendimento? Mas e se eu viver 100 anos?
Me passa pela mente um turbilhão de experiências que eu teria... Sobraria tempo para fazer as coisas rotineiras que faço e entendo todos os dias, como pentear os cabelos? E se eu quisesse sair descabelada, posso somar uma hora para mais um entendimento? E se eu experimentasse jiló varias vezes, será que eu entenderia porque não gosto do gosto?
Não quero comer jiló, então porque eu deveria entender isso? Desculpa jiloeiro, mas não sou obrigada a entender coisas que não quero. As que eu quero já me roubam a vida inteira... Logo, entendi que preciso primeiro entender o que querer. E isto já é um entendimento redundante. Seria um bom começo?

Sou do tipo que prefere a palavra escrita à palavra falada. Talvez por ser banhada por uma espécie de timidez, ou devido à tamanha insegurança que mal pode ater-se a alma. Acontece que tenho uma certa intimidade com o papel, liberdade essa que me faz poder ser o que eu quiser e bem entender, aliás, apenas “quiser”, já que entender é um verbo que não costumo proferir sem o não na frente.
Reconheço meu péssimo habito de habituar-me ao não entendimento. Quanto ao outro verbo “querer”- esse sim eu domino todos os tempos verbais. Eu poderia escrever um livro apenas com as conjugações desses verbos elucidando todas as experiências que queria ou não entendo. Esse livro teria mais de 1000 páginas e seria mais complexo que o mais complexo livro. Qual é o mais complexo livro? Boa pergunta. Não sou do tipo que lê muito. Deveria ler mais, mas confesso que a complexidade às vezes me enjoa.
Eu nunca escreveria um livro de 1000 páginas sobre verbos tão complexos, pois eu iria enjoar de mim mesma. Prefiro querer e não entender em silêncio. E se eu disser que quero me entender, você entenderia?
Por mera coincidência, acabei de ouvir no radio que para entender as coisas é preciso experimentá-las. Será que uma vida inteira de experimentos basta para tantas coisas que quero e não entendo? Se em média uma pessoa vive 70 anos, equivalente a 25.550 dias ou 614.000 horas, seria esse tempo o suficiente para tão complexo cronograma? Já perdi uma hora escrevendo, devo subtrair uma experiência? Seria menos um entendimento? Mas e se eu viver 100 anos?
Me passa pela mente um turbilhão de experiências que eu teria... Sobraria tempo para fazer as coisas rotineiras que faço e entendo todos os dias, como pentear os cabelos? E se eu quisesse sair descabelada, posso somar uma hora para mais um entendimento? E se eu experimentasse jiló varias vezes, será que eu entenderia porque não gosto do gosto?
Não quero comer jiló, então porque eu deveria entender isso? Desculpa jiloeiro, mas não sou obrigada a entender coisas que não quero. As que eu quero já me roubam a vida inteira... Logo, entendi que preciso primeiro entender o que querer. E isto já é um entendimento redundante. Seria um bom começo?
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